Presente de grego

Fecharam-se as cortinas. Uma a uma apagaram-se as luzes. Deitada sobre o palco dos sonhos, deixara-se ficar. Corpo entregue ao final. Lágrimas vazias de emoção. Mãos vazias de recordação. Quisera ser Helena de Tróia, reviver a musa de Páris. Mas o mundo, o mundo exigira dela decisões sobre como ser. Conseguira apenas imitar a corda dissonante de um violino quebrado. E no final do espetáculo seus acordes perderam o tom. O cisne calara o seu canto, trôpego o coração parara. Não se vira no espelho, não se reconhecera na criada figura ofuscante. Aberta a embalagem, havia apenas vazio de som. O que deveria ser encanto em presente de grego se transformara. Silenciosamente, o sonho se fora...