O outro lado da mesma moeda

Um dia ele chegou diferente. O cansaço da longa viagem fora substituído por uma agitação anormal. Beijou-a rapidamente e entrou no banheiro.
Com a naturalidade de sempre, ela o seguiu. A porta estava trancada. Nunca fizera isso. A sua chegada fora sempre celebrada com um sexo selvagem lá mesmo no chão do banheiro.
Dando de ombros, voltou ao micro. Teria tempo para responder aos dois e-mails ali pendurados. Tentaria também encontrar a senha do arquivo que perdera. Bendita memória.
Só mais tarde, ouvindo Chico é que ela voltou a perceber a sua agitação. Intuiu que havia algo engasgado nele, mas nada disse. Esperaria que ele mesmo encontrasse o momento de falar-lhe.
Deitado no tapete, ele virou e pediu que ela levantasse sua camiseta. Durante alguns segundos ela apenas olhou. Marcas vermelhas de unhas afiadas. Várias e em várias direções.
Nunca sentira ciúmes. Nunca sequer perguntara a ele o que fazia quando não estava com ela. Sempre acreditara que a individualidade de cada um deveria ser preservada - mesmo que ele não concordasse e tentasse sempre invadir a sua.
Mas naquele momento, algo doeu dentro dela. Orgulho ferido? Desrespeito? Ciúme? Egoísmo? Não soube definir. Ela sempre soubera ser impossível ele não ter outras mulheres. Quarenta e cinco dias fora de casa, durante anos, garantia isso. Mas nunca vira nenhum sinal de outra. Nem nunca se preocupara com isso. Tinha sua própria vida.
Ele continuava quieto como a esperar a condenação. De repente, a situação pareceu a ela de uma comicidade terrível. Um homem enorme, forte, seguro, ali completamente vulnerável a espera de um veredicto seu.
Levantou-se, serviu a ele um uísque e serviu-se de uma coca. Voltou à poltrona e pediu a ele que contasse.
A sua reação provocou a volta do homem que conhecia. Sentando-se ele contou sua aventura. Uma transa com duas mulheres que viajaram com ele. Motel de beira de estrada, tesão em estágio de descontrole e a completa entrega aos instintos da carne.
Enquanto ele contava, ela viu-se na sua última fantasia. A louca experiência com outra mulher e seu ex. Pensou na completa naturalidade com que enfrentava suas próprias paixões, seus desejos e suas fantasias. A camisinha! Será que ele se lembrara disso?
Resolveu romper as barreiras do silêncio entre os dois. Propôs mais uma vez papo aberto, transparente. Mais uma vez ele tangenciou. Queria apenas que ela entendesse o fato isolado, porque as marcas o obrigavam a isso.
Naquela noite, não houve sexo selvagem. Fizeram amor como há muito não faziam.
Reencontram-se no corpo um do outro. Redescobriram respostas a perguntas nunca feitas.
E celebraram novamente a alegria de estarem juntos.