O cravo e a rosa


É orgulhosa aquela danada. Mas como é gostosa! E quando fica vermelhinha de raiva é ainda melhor. Ela acha que acreditei no teatro que fez quando foi me visitar. Por detrás daquele lindo narizinho empinado, percebi a atração que sente por mim. Da nobre raiz aos delicados pistilos. Com toda a empáfia de uma rainha, disse-me que estava ali cumprindo um compromisso moral. Não era flor de se esquecer de seus súditos, menos ainda de negar-lhes auxílio quando mais precisavam. Como se eu precisasse dela mais do que ela de mim! Sei o que ela quer, mas não sei se quero dar-lhe. Talvez eu dê, mas não antes de fazê-la reconhecer em mim o seu amado. Este dia chegará, palavra de cravo!

As más línguas andam dizendo que saí despedaçada daquela briga. Como são pobres de espírito! Certamente não conhecem – ou não entendem – o orgulho e a força da minha estirpe. Sou a rainha do jardim. É de se imaginar que uma rainha deixe pedaços pelo caminho? Ou que se deixe despedaçar por um plebeu? É bem verdade que minhas pétalas andaram trêmulas e meu perfume esteve direcionado para aquele ingrato. Mas foi uma atração passageira. Digamos que tenha sido um capricho feminino. Uma vontade de explorar o degrau mais baixo da imensa escadaria do Olimpo. Mas passou. Caí em mim antes que tivesse sido tarde demais.

Tempos depois:
Estava quieto sobre o peito do moribundo. Apenas escutando os murmúrios à sua volta. Nunca entendera como os humanos podiam ser tão falsos. Quando estava no jardim da bela casa ouvira aquelas mesmas pessoas xingando o velho. Não gostavam dele. Apenas o suportavam a espera deste dia – o dia da sua morte. E agora estavam ali. De óculos escuros para esconder o brilho dos olhos. E para combinar com as lágrimas que escorriam mentirosas.
Duas mãos de criança a trouxeram – imponente, orgulhosa e linda. E a colocaram exatamente ao seu lado. Juntinho dele. Sentiu o perfume dela e estremeceu. Por instantes a voz lhe faltou. Será que ela o reconheceria? Qual o quê? Seus irmãos, espalhados pelo corpo rígido, eram exatamente iguais a ele! Mas a reconheceu pelo perfume, mesmo sendo igual a tantas outras.
A força do olhar dele a atraiu. Sentiu seu estremecimento. As pétalas meio que piscaram para o cravo expectante. O perfume ficou mais intenso. Ela o reconhecera. Enfim, estariam juntos.
Olharam-se. Em completa sintonia, perceberam-se. Tarde demais! Perceberam também que não havia mais tempo. Estavam ambos cortados pela raiz. Durariam pouco tempo. Ela, menos ainda que ele. Perderam uma vida na disputa de quem venceria. E morreriam ambos derrotados. Amores que não se entrelaçaram. Amantes que não se deram.
Entregaram-se ao olhar um do outro. Até que ela murchou. Olhou em volta e viu a dona das mãozinhas que a trouxeram. Se fosse humano pegaria a menina pelas mãos e lhe diria que cuidasse bem de todos os seus sentimentos, mesmo aqueles que lhe parecessem impossíveis ou pecaminosos. Que vivesse cada dia como se fosse o último e não ignorasse os pequenos momentos felizes. Porque a felicidade não está apenas no objetivo, mas também e principalmente no caminho que leva a ele.
Fechou os olhos e entregou-se ao destino que levaria os dois. Sem orgulho, sem beleza, sem vida.