A rosa e a couve-flor

Por uma destas ironias do destino – ou pelas mãos mal intencionadas de algum jardineiro – um vermelho brotou num canteiro de couve flor. Uma rosa. Bela, rubra e orgulhosa.
Ainda em botão, ela percebeu suas vizinhas. Achou-as esquisitíssimas. Incolores! Mais parecia um grande chumaço de estopa encardida. Ou o cérebro de algum extra-terrestre. Completamente destituídas de graça, esparramadas sobre a terra.
Olhou-se. Não conseguia entender como ela, tão linda e tão fina, fazia no meio de seres tão inferiores. Achando-se injustiçada pela mãe natureza, fechou-se num orgulhoso mutismo.
Desabrochou vermelho-escura. Bela como só uma príncipe negro sabia ser. Orgulhosa de sua nobreza e cônscia da sua importância como vegetal superior. Já havia percebido que uma das suas vizinhas tentava chamar-lhe a atenção. Fingia não perceber. Não conseguia sequer cogitar a hipótese de discutir banalidades com a tal. Certamente ela iria querer falar de adubos, fertilizantes, inseticidas ou outro assunto de fundo de quintal. Deus a livrasse desta pobreza de espírito!
Enquanto assim pensava a nobre donzela, a couve-flor tinha um diálogo furioso consigo mesma. Como esta clandestina ousava olhar-lhe de cima, nariz empinadissimo, se estava em seu domínio? O que achava que era para fingir que não ouvia seus chamados? Dia chegaria em que ela veria onde seu orgulho a levaria!
Pois um belo dia aconteceu! Mãos cobertas por luvas grossas e sujas, segurando uma enorme tesoura, aproximaram-se da nobre dama. Ela estremeceu sobre o longo e fino caule, imaginando onde aquele rude espécime humano a levaria. Minutos depois, viu-se dentro de uma enorme cesta, ao lado de várias e rechonchudas hortaliças. Inclusive a vizinha. A tagarela e intrometida couve-flor. Continuou ignorando-a. A ela e a todos os seus parentes.
Horas depois, estavam ambas sobre a mesa. Ela, a nobre vermelha, dentro de uma jarra de cristal no centro da mesa. A outra, a gorducha incolor, sobre uma travessa enfeitada de rodelas de tomates, pimentões e cebola. Mereciam-se!
A couve-flor, não resistiu. Sabia qual seria seu destino, mas antes de cumpri-lo, tinha contas a ajustar com aquela empoadíssima donzela.
Escuta, você sabe qual será seu fim? Não finja que não me escuta. Esquece a pose porque seu fim está tão próximo quanto meu.
Olhando-a com ar de enfado a rosa apenas transformou-se em interrogação. Muda. Muda e bela.
Pois vou lhe dizer com todas as palavras. Quando terminar esta refeição, você será jogada na lata de lixo junto com os restos de comida que sobrarem nos pratos. Ou, máximo, a cozinheira arrancará uma de suas pétalas para marcar uma página no seu livro de reza. Ou a copeira cortará seu caule e te enfiará entre seus volumosos seios até que você se despetale inteiramente nas idas e vindas, subidas e descidas da respiração quente dela.
E você? Será comida tão rapidamente que nem perceberá seu próprio fim.
Com certeza serei comida. Mas veja só quem está sentado à mesa. Percebeu? Conhece mancebo mais bonito? Serei comida por ele. Sua boca se abrirá pra mim com todo o prazer que um jovem cheio de hormônios pode ter. Morrerei feliz porque terminarei meus dias sendo verdadeiramente comida. Enquanto você, morrerá virgem e seca.