O abandono

Estava eu saída de uma relação que durara dois anos. Naquela fase de desassossego - buscando vida nova.
Entrei numa sala de bate papo e o encontrei. Conversa bacana de duas horas. No dia seguinte, mais umas três horas. No terceiro dia, estava eu no restaurante marcado esperando alguém de jeans e camisa polo branca. Vi uns dez e nenhum chegou na bendita mesa. Quando eu já estava desistindo aparece o moço. Nem sentou-se. Desculpou-se enroladamente e lá se foi meu futuro!
Primeira vez que me acontecia algo parecido. Com absoluta surpresa de primeira vez, terminei a coca, pedi a conta e saí. Putérrima.
Nem sei como desci as escadas, sei que no meio delas o salto quebrou e literalmente caí nos braços de um homem que subia.
A situação era tão cômica que comecei a rir. Ele gentilmente abaixou-se e pegou o bendito salto quebrado. Olhando o objetozinho na mão dele fiquei a pensar em mim saindo mancando e ele olhando. Nunca. Minha vaidade não permitiria tal coisa. Tirei a outra sandália e pedi a ele que quebrasse o salto.
Ele olhou-me com um sorriso divertido e tentou. Tentou de verdade. Mas só outra pisada errada conseguiria quebrar o danado.
Sem outra opção, fiquei descalça. Comecei a agradecê-lo e a descer. Pegando-me pelo braço, desceu comigo sem nada dizer. Só uma sombra de sorriso iluminando o rosto. Ainda sem nada dizer, fomos para o estacionamento em frente. Estranhamente, deixei-me conduzir. Um misto de alívio e de vingança.
O moço era um gato. Lindo! Pena que deveria ter uns 30 e poucos anos. Eu quase cinquenta. E cheia de preconceitos em relação a menores de 40.
Mas entrei feliz no carro dele. Dei o endereço e rapidamente estávamos na porta do meu trabalho. Agradeci e preparei-me para sair. Segurando meu braço, tirou um cartão e entregou-me. Olhei-o sem ver - imaginando o que aquilo quereria dizer. Com um sorriso ele disse esperar meu telefonema no dia seguinte.
Meu ego exultou! Claro que não liguei. Nem usei o endereço de e-mail escrito no cartão.Mas ganhei o dia, claro. E ganhei um amigo. No dia seguinte ele me ligou. Vez ou outra almoçamos juntos, mas nunca mais falamos do episódio do salto.
Voltando ao ex- futuro. No dia seguinte, ele me liga. Paciente como sou, foi necessário contar até mil para não mandá-lo para um lugar bastante interessante. Dispensei-o sem dar-lhe tempo para qualquer explicação.
Durante mais de um mês não atendi aos telefonemas dele nem abri seus e-mails. Gelo completo para deixar de ser idiota!
Depois de um tempo tirei-o do bloqueio. Mas sem nenhum tesão. Aquele encontro não acontecido acabou com qualquer interesse meu.
Fazia uns 3 meses que não tinha notícias dele. Na segunda, abri seu e-mail. A única vontade que tive foi de mordê-lo! E sem tesão! Mordida sem tesão é picada de serpente venenosa! Um risco quase fatal! Não sou vingativa. Juro que não