(e a invisibilidade do espelho)
Eu, deitada encolhida feito feto.
Ela, sentada feito inquisidora espanhola.
Entre nós, a vida.
- Reaja, mulher. Você não pode se dar ao luxo de deixar a vida passar por si.
- Não é verdade. Tenho feito tudo que se espera de mim. Tenho sido muito mais forte do que realmente sou.
- Você está repetindo isso pra se convencer, mas sabe que está se entregando ao cansaço.
- Putz! Sou humana. Eu sinto tudo como todo mundo.
- Mas está paralisada no sentir. Precisa reagir. Ainda não pode parar. Seu filho precisa de você inteira. Seu trabalho depende de você. Sua família gira em torno da sua força.
- ...
- Olha só. Desde o acidente do Marcelo você não consegue começar algo e terminar. Tudo bem. Houve um momento em que era compreensível, mas agora é tempo de voltar à vida.
- Mas já voltei. Estou trabalhando normalmente.
- Não, não está. Você está se dizendo que quer terminar seu trabalho rapidamente, mas não tem feito nada de concreto pra isso acontecer.
- Como não tenho? Hoje passei o dia finalizando o projeto.
- E perdeu as duas páginas!
- Foi um acidente.
- Não. Foi falta de atenção. Falta de concentração.
- ...
- Você tem reuniões para fazer, telefonemas a dar, e-mails para responder.
- ...
- Além disso, você precisa se definir em relação ao seu blog. Não pode continuar apenas escrevendo compulsivamente como se não tivesse compromisso com seu leitor.
- Eu sei. Vou responder aos comentários e vou voltar a comentá-los.
- Você diz isso todas as manhãs.
- Não quero me sentir na obrigação de fazer nada, pô! Já tenho tantas outras obrigações... E não estou conseguindo comentar. Leio, mas não sai nada... Só consigo escrever no meu blog.
- Então para de escrever!
- Não posso. Escrever é minha válvula de escape.
- Faça então um blog particular, onde você possa escrever sem o compromisso que seu blog acarreta.
- Vou pensar...
- Este é o problema. Você anda pensando demais e fazendo quase nada. Agora por exemplo, deveria se levantar e ir para o Chat. Você tem um assunto pendente pra resolver.
- Eu sei.
- Sabe, mas não se levanta. Reaja. Você está fugindo da sua vida e, pior, se intrometendo na vida de outras pessoas, invertendo valores, perdendo-se no sentir de outros, deixando-se influenciar por opiniões externas. Você nunca foi assim.
- Você está sendo dura demais. Sei que ando meio perdida, mas não mudei. Sou ainda a mesma pessoa. Meus valores não mudaram. E vou resolver isso. Daqui a pouco me levanto. Daqui a pouco...