Deusa pagã

Nasci essencialmente puta. Destituída de sentimentos e de qualquer moralidade. Sou feita de ação e reação embora tenha adquirido o sentido da emoção.
Meu universo é feminino - universo castrador, feito de mapeamentos, escalas, réguas e inúmeras regras - mas não me prendo a gêneros. Sou naturalmente lésbica.
Na adolescência descobri meu poder. Olhos novos mostraram-me a dádiva da natureza: minhas formas voluptuosas e sedutoras. Desde então, pinto-me com as cores do arco-íris e abro-me para o universo.
Minhas primeiras experiências, tímidas e tateantes, tornaram-me amante lésbica. Aos poucos aprendi várias danças: tornei-me exímia bailarina.
O lesbianismo apenas já não me satisfazia. Minha curiosidade exigia novas incursões. Timidamente, tracei novas rotas. Ganhei asas de borboleta e voejei sobre novos terrenos, voltando sempre ao ponto de partida: a minha parceira lésbica.
Com o passar do tempo, fui criando novas danças e conhecendo novos terrenos. Alguns, seda áspera - estes os mais excitantes. Outros, lisas e longas estradas a serem percorridas lentamente.
Aprendi a usar todos os instrumentos de que disponho - dentes, lábios, língua, saliva. Descobri o poder de cada um deles e ganhei a autonomia de usá-los como, quando e onde quisesse.
Ainda na adolescência, escalei o pico mais alto do universo masculino. Foi atração mútua e irremediável. Tornamo-nos eternos amantes. Encontros furtivos, longe de olhos curiosos. Mas encontros altamente excitantes que terminam sempre em fumegantes lavas vulcânicas.
Entrando na idade adulta, dei a volta ao mundo. Experimentei cada monte, cada depressão, cada caverna do universo masculino. Mapeei lenta e sensualmente o universo como um todo. O prazer foi tão completo que transformei-me em adoradora da natureza.
Uma deusa pagã em eterna homenagem ao grande Zeus.
Também conheci o universo feminino. Foi uma viagem rápida, cheia de estímulos novos e contatos macios. Viagem prazerosa mas apenas iniciada. A minha grande atração, embora lésbica, estará sempre no universo masculino.
Não sou fiel. Desconheço a necessidade de algo que impeça o meu prazer. Abro-me prazerosamente em qualquer ponto, em qualquer hora. Sou facilmente atraída e atraio irresistivelmente novas parcerias. Se não exercito a minha prodigalidade é pela moralidade do meu universo. A ele devo minhas escolhas e a falta delas.
Sou múltipla na minha unicidade. Sou carinho, sou força, sou meiguice, sou aspereza, sou sopro, sou sangue, sou vida.
Vivo de felicidade sorridente. Uma única tristeza me devora: não tenho nome próprio.
Dentro do vasto universo que me acolhe sou apenas o substantivo feminino boca.