Alta tensão

Como um assaltante ele me coloca contra a parede. Seu corpo cobre o meu, sua boca morde minha nuca e seu membro pulsa em minhas nádegas. Amolecida entrego-me ao seu assalto. Por entre minhas coxas corre o líquido da minha excitação e meu coração ressoa forte nos ouvidos. O macho toma posse do fogo que o trouxe até ali.
Um cheiro forte anuncia o sexo esperado e muito desejado. A temperatura sobe a cada mordida dele e a cada gemido meu. A fêmea grita dentro de mim e solta-se em unhas e desejo.
Num único e brusco movimento ele me carrega para a cama. É o domínio do macho sobre a fêmea rendida. Primeiro são os olhos a comer-me o corpo: sinto-os correndo pelas coxas, costas e nuca. Depois as mãos traçam caminhos de fogo na pele prestes a explodir. Em seguida, a estocada fálica. Possante, invasor e doloroso seu membro enterra-se entre minhas nádegas. Meu grito ecoa pelas paredes caladas. Meu corpo se mexe entre a vontade de soltar-se e o desejo de estar eternamente preso ao seu assaltante.
Impiedoso, ele me penetra em toda a sua extensão. A dor me deixa insana para logo em seguida desaparecer. Em seu lugar, cresce a fome de engolir o macho e transforma-lo em presa do meu desejo. Trombetas angelicais misturam-se ao fogo infernal fazendo meu corpo ganhar vida e dançar loucamente. Entre gritos, gemidos e palavrões sinto seu jato queimando minhas entranhas. No mais alto pico da tensão meu gozo escorre quente por entre minhas pernas. Unimos nossos gritos, nossos líquidos e caímos sobre a cama.
Saciados, suados, cansados nos abraçamos. Da alta tensão fica a certeza do amor.

Sonho molhado

A água do chuveiro cai morna sobre seu corpo nu. Um arrepio corre por suas costas alojando-se nas entranhas. Pensa nele, o seu homem. O homem que espera há uma vida. O homem que ama. Fecha os olhos e entrega-se ao prazer de sonhá-lo como se ele estivesse debaixo da mesma água. O amor dói no corpo e pede para ser liberado. São muitas as vontades que guarda para ele. Guarda seu corpo em brasa que grita para ser literalmente comido. Comido pela boca, pelos olhos, pelas mãos e pelo falo amado. Quer este homem dentro de si. Quer tê-lo invadindo seus recessos e derramando sobre ela seu líquido quente. Lambuzar-se neste líquido e fazer dele seu alimento. Quer dar-lhe o seu próprio gozo. Espalhá-lo pelo rosto e corpo dele para que nunca mais se esqueça do sabor da vida que pulsa entre suas pernas.Sentir o gosto da pele dele em sua língua. Deixá-la passear por todo seu corpo num caminho que construirá com fogo. Esfregar-se nele, pele com pele, e deixar que seu cheiro entre por todos os poros do seu homem. Sugar-lhe os mamilos como uma cadelinha faminta. Mordê-los e beijá-los para ouvir seu grito de tesão. Quer a voz dele, rouca e sensual, chamando-a puta, a sua puta, e pedindo-lhe que o cubra com o corpo, que o mate com a volúpia do seu desejo.Ah, como ela ama este homem! Tanto que cada louca batida do coração é um grito de amor e de vontades.A dor do desejo contido a faz voltar à água do chuveiro. Trêmula, tensa e enlouquecida de tesão começa a acariciar-se. Até que o gozo vem quente, farto e bendito.

Entre eu e ela

(e a invisibilidade do espelho)

Eu, deitada encolhida feito feto.
Ela, sentada feito inquisidora espanhola.
Entre nós, a vida.
- Reaja, mulher. Você não pode se dar ao luxo de deixar a vida passar por si.
- Não é verdade. Tenho feito tudo que se espera de mim. Tenho sido muito mais forte do que realmente sou.
- Você está repetindo isso pra se convencer, mas sabe que está se entregando ao cansaço.
- Putz! Sou humana. Eu sinto tudo como todo mundo.
- Mas está paralisada no sentir. Precisa reagir. Ainda não pode parar. Seu filho precisa de você inteira. Seu trabalho depende de você. Sua família gira em torno da sua força.
- ...
- Olha só. Desde o acidente do Marcelo você não consegue começar algo e terminar. Tudo bem. Houve um momento em que era compreensível, mas agora é tempo de voltar à vida.
- Mas já voltei. Estou trabalhando normalmente.
- Não, não está. Você está se dizendo que quer terminar seu trabalho rapidamente, mas não tem feito nada de concreto pra isso acontecer.
- Como não tenho? Hoje passei o dia finalizando o projeto.
- E perdeu as duas páginas!
- Foi um acidente.
- Não. Foi falta de atenção. Falta de concentração.
- ...
- Você tem reuniões para fazer, telefonemas a dar, e-mails para responder.
- ...
- Além disso, você precisa se definir em relação ao seu blog. Não pode continuar apenas escrevendo compulsivamente como se não tivesse compromisso com seu leitor.
- Eu sei. Vou responder aos comentários e vou voltar a comentá-los.
- Você diz isso todas as manhãs.
- Não quero me sentir na obrigação de fazer nada, pô! Já tenho tantas outras obrigações... E não estou conseguindo comentar. Leio, mas não sai nada... Só consigo escrever no meu blog.
- Então para de escrever!
- Não posso. Escrever é minha válvula de escape.
- Faça então um blog particular, onde você possa escrever sem o compromisso que seu blog acarreta.
- Vou pensar...
- Este é o problema. Você anda pensando demais e fazendo quase nada. Agora por exemplo, deveria se levantar e ir para o Chat. Você tem um assunto pendente pra resolver.
- Eu sei.
- Sabe, mas não se levanta. Reaja. Você está fugindo da sua vida e, pior, se intrometendo na vida de outras pessoas, invertendo valores, perdendo-se no sentir de outros, deixando-se influenciar por opiniões externas. Você nunca foi assim.
- Você está sendo dura demais. Sei que ando meio perdida, mas não mudei. Sou ainda a mesma pessoa. Meus valores não mudaram. E vou resolver isso. Daqui a pouco me levanto. Daqui a pouco...

Final feliz

Um dia ele chegou. Envolto num arco-íris, de quem roubou as mais belas cores. Brilhou primeiro como anjo de cabelos encaracolados. Cercou-me. Trouxe-me sorrisos e o doce despertar da minha meninice. Brincamos de amarelinha, de bate e volta e cantamos cantigas de ninar. Eram as asas que eu tanto sonhara que chegavam coloridas.
Fui crescendo com ele. E aprendendo a voar cada vez mais alto. Dancei, esvoacei, rumorejei. Embobei também. Repeti inúmeras vezes as palavras que os meus sonhos ditavam. Até fiz versos. Alguns, escondi de mim mesma. (Eu ainda não me acostumara ao lirismo que entrara sorrateiramente por entre as minhas palavras).
Uma tarde, ele mudou. Sem nenhum aviso prévio, agigantou-se à minha frente. Belo, forte e terrivelmente possessivo abriu-me seus braços. Atônita, vi os cabelos encaracolados transformarem-se em flechas mortíferas. Reagi. Minhas palavras esconderam-se por detrás do pensamento e resisti. Briguei com o brilho dos meus olhos, deserdei minha alma saltitante e tentei congelar meu coração.
Na manhã seguinte, acordei de olhos arregalados e uma bateria descompassada dentro do peito. Criei coragem e me desnudei frente ao espelho. Com toda seriedade própria de um espelho honesto ele escreveu-me a sentença: renda-se porque ele é maior do que você.
Aliviada, abracei a sentença que, soberana, ignorava a minha sensatez. As estrelas piscaram, a lua fez-se cúmplice e os sinos anunciaram o final feliz:
sou o amor maior que eu!

Anjo da maldade

História de amor acontece assim: de repente o amor invade e abre caminhos, trilhas, atalhos. Absurdamente, espalha-se incendiando todos os espaços. As labaredas vão destruindo a razão deixando quente as costas que não mais se deitam.
De olhos fechados, ele era surdo aos murmúrios do avião. Pensava nestes novos caminhos que queimavam-lhe a visão e deixavam o coração balançando arritmicamente.
Tudo fugira ao seu controle. Ele queria sexo, ela queria amizade. Sexo para ela dependeria dos olhos, do toque, dos sinais do coração. Ele já a queria. Seu corpo rolando na cama nas várias noites insones o fizera estar ali.
Sabiam ambos do tesão que explodia nas noites da net. Mas não sabiam dos olhos nos olhos. Olhos que se prenderam em meio ao burburinho do shopping, levando-os a uma cama de motel.
Deitado ao lado dela descobrira: queria todas as suas manhãs emolduradas pelo raio de sol no corpo dela. Queria seu cheiro invadindo seu desejo. Queria os olhos brilhando nos seus. Ela sorrira e lhe beijara o peito. Não seria preciso dizer-lhe, ela jamais seria sua.
Ele queria amá-la todos os dias. Ela queria amá-lo vez ou outra.
Uma dor fina passou por suas entranhas. A dor de uma saudade insidiosa fazendo-se irmã gêmea do amor novo.
Abriu os olhos para nada ver. Seus olhos ficaram presos aos dela. Agora reconhecia-se também alma. Tarde demais. A alma emaranhara-se na dela. Ficara presa, enroscada no sorriso angelical da mulher que lacerara sua carne e instalara em si desejos desconhecidos. Descobrira que não há linha divisória entre o céu e o inferno. Ela fora capaz de levá-lo a transitar entre trombetas e o arder do fogo eterno.
Sua vida estava agora naquele sorriso. Ele se desconhecia e se reconhecia novo. Queria apenas chegar em casa e sorver o líquido do esquecimento temporário que varreria a dor do nada. Dormir nas lembranças, acordar na esperança.
Esperança que ele faria renascer a cada dia como flor que surge entre pedras

Beija-flor, a flor e o néctar

Depois de um longo fim de semana respirando poesia, a prosa hoje não poderia ter outro tema. Talvez, o fechar do círculo.
A minha relação com a poesia sempre foi de êxtase. Me lembro que, quando pequena, adorava ler “Isto ou aquilo” da Cecília Meireles. Li trocentas vezes. Adorava recitar, sozinha no meu quarto, poesias de Cassiano Ricardo, Drummond, Olavo Bilac e outros poetas da minha adolescência.
Mais tarde comecei a me encantar pelos poetas. Lia todas as biografias que me caiam nas mãos. E as que não caiam, buscava! Virei quase uma especialista em vidas e obras dos meus poetas.
Mas o meu contato direto com o homem poeta só aconteceu depois dos 30 anos. Foram contatos profissionais, mas só não babei por timidez! Com alguns deles até tive vários contatos e sempre me sentindo em êxtase intelectual – o que vale dizer: completamente emburrecida de tanta babação.
Na net, o contato mudou. Há quase dez anos atrás, conheci meu primeiro homem-poeta. Claro que me apaixonei por ele. Hoje, quando me lembro da nossa relação, sinto um misto de saudade e de diversão. Eu não era uma mulher apaixonada. Eu era uma tiete apaixonada. Ele fazia lindos hai-kais pra mim e eu ficava sem palavras. Sem palavras ainda fico, mas aprendi a dar um jeito na situação.
A cada hai-kai vindo na minha telinha, meu tesão aumentava. E era um tal de umidade constante que nem sei como não me liquidifiquei inteiramente.
Resolvemos nos encontrar. Meu primeiro encontro com alguém conhecido na net. Sonhei e fantasiei o encontro por uma semana. Seria no flat onde ele se hospedava sempre. Menos mal. Mais privacidade do que a entrada de um motel.
Não sei como passei pela portaria e pela identificação. Ao entrar no prédio já estava me sentindo na frente dele. Coração cantando, pernas dançando, mãos geladas, frio no estômago e um misto de tesão e medo.
Mal ouvi o som da campainha lá dentro e a porta se abriu. Um homem de 1,92m, olhos azuis, cabelos amarrados num rabinho de cavalo e uma boca... Parei na boca. Todos os meus sentidos estavam nos lábios amantes e no sorriso de menino grande. Sem palavras, cai em seus braços. Sumi no seu abraço e nem me importei. A última tentativa de racionalidade morreu ao ouvir sua voz recitando um hai-kai no meu ouvido. A partir daí, passei a ser apenas fêmea.
Saí de lá pisando nas nuvens. Sentindo-me meio amassada, mas com a felicidade cantando em decibéis altíssimos. No dia seguinte, a revelação. Fiz amor com a poesia, com o poeta. Do homem, já nem me lembrava muito.
Depois disso, evitei qualquer contato com os homens das letras, mas continuei em êxtase com a poesia. No mundo dos blogs voltei a ter contato com poetas e suas obras. Me apaixonei por muitos – homens e mulheres. Sou apaixonada por todos os poetas que leio. Femininos e masculinos. Não sou apaixonada pelo homem poeta – menos ainda pela mulher poeta, obviamente.
Mas o sonho de ter um poeta na minha vida continua. Sonhos não morrem nunca. Sonhos existem pra não morrerem mesmo!
Mas não era de tudo isso que queria falar hoje. Era só de poesia. Lógico que não vou reler nem refazer!
E para que o título faça sentido: sou o beija-flor, o Poeta é a flor, a Poesia é o néctar!

Fotografia 3 x 4

O espelho reflete apenas seu rosto. Moldura brilhante para a visão diária de si mesma. Os olhos brilham em castanho escuro. Mostram a alma. Brilham confusos, brilham felizes, brilham apaixonados, brilham tristes, brilham surpresos. Cílios que se encontram formando longas cortinas impenetráveis. Sobrancelhas gêmeas e indagadoras. Os cabelos são fios curtos e irregulares que se espalham em várias direções. Ainda têm o brilho da água cristalina da cachoeira. Apenas a cor é mutável e ela transita por matizes variados. Como brincando com uma aquarela infinita. A boca. Ah, a boca! É o que mais gosta em si. Boca que explora, que ri, que chora, que degusta, que sente, que goza. Infinitas viagens, as da boca. Lábios sensuais – foi sempre o que ouviu. Lábios sensíveis – foi sempre o que sentiu. Pele ainda guardando a cor do verão. Leve. Macia. Lembrando jambo, dizem. Não mais guardando o brilho da fruta, mas ainda um convite ao toque suave. Marcas dos tantos anos de intensa vida. Pequenas rugas lembrando os muitos sonhos vividos, as muitas dores sofridas. Marcas que ela cultiva. É sua vida ali desenhada. O conjunto é agradavelmente mistura de várias raças. Olha-se tentando se ver pelos olhos externos. Uma mulher. Mulher que sabe sorrir pra vida. E que reflete no rosto os sonhos que sonha. Apenas isso.